quinta-feira, 4 de abril de 2013

Doces na caixinha

Curitiba, 2013

Num cruzamento movimentado do centro da cidade havia uma figura esquecida. Nas noites geladas de Curitiba, em meio a carros e pessoas apressadas para chegar em casa, havia uma senhora vestida de palhaço vendendo doces. O sinal fechava e a palhaça ia indo entre os carros. Uns fechavam o vidro, outros faziam que não com a cabeça. As crianças que voltavam da escola mostravam a palhaça aos seus pais que as ignoravam. O sorriso, com o tempo, sumia do rosto. Os doces se mantinham intocados dentro da caixa. Semáforo após semáforo, hora após hora, dia após dia... A maquiagem branca no rosto já não possuia o mesmo brilho, a mesma vivacidade. Até que um senhor para ao seu lado sorrindo com sua filha e pergunta o que tinha na caixa. Assustada, ela responde:
 - Pastilhas de Hortelã, Chicletes, Balas de Cereja.
 - Quanto são as Balas de Cereja?
 - É 50 centavos.
 - Acho que vou levar um. - Entregou a moeda a palhaça, e a menina quem pegou o pacote de balas da caixinha.
O senhor disse boa noite e saiu sorrindo. A palhaça esboçou um sorriso de volta, sussurrou um "Obrigada" e voltou à sua rotina triste e metódica. Algumas horas depois, a palhaça estava em casa em frente a um espelho retirando a maquiagem. O rosto da menina sorrindo voltou a sua mente. Uma lágrima lhe passou pelo rosto.    

terça-feira, 19 de março de 2013

Evaldo estava sentado na cama olhando para os resultados de um experimento que dera errado.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

f(x,y) = 0

Seja f uma função de duas variáveis a valores em IR² tal que para cada ponto no plano (x,y) exista uma imagem f(x,y) = 0.
Hoje, eu aprendi a gostar do zero. Zero, tal como na função acima, é um conjunto infinito de pontos, ou seja, por mais que eu escolha qualquer valor, meu resultado sempre será zero. Hoje eu aprendi a conviver com isso, soube que nem tudo que você quer será o você terá. Eu, agora, escolhi pelo zero, pelo anonimato. Hoje eu escolhi f(x,y) = 0.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Não Caia

Certa vez uma amiga me disse "não caia". Percebi naquele instante que tudo podia cair, porém, ao invés da Lei de Gravitação Universal, me veio a cabeça: "Alguém poderá me erguer?"
Meses se passaram: eu, eu vivia caindo. E queda após queda eu percebi que ninguém te ergue, todos te derrubam.
Meses se passaram: hoje eu me vi cair. Não havia mais amiga pra dizer "não caia", ainda assim, caí. Não sei se posso me levantar, ou se o chão sujo e frio é meu lugar. Não havia ninguém pra me derrubar, nenhum obstaculo para tropeçar. So havia eu, e o nada, e no fim, a sensação de que podia, de que devia haver algo ali. Nada. Você perseguiu seu sonho muito depressa, você conseguiu, você está sentado num apartamento frio, sem nada que possa te aquecer. O nada que já havia antes mesmo de existir. "Não caia."

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Cidade

"Espaço em contradição de ser. Ruas, avenidas, praças, traços verticais. Transeuntes uns, Josés e tais. Barulhos afins, faróis. Na esquina de um João Ninguém há mundos de papelão. Sujeitos e construções. Olhar pernas descobertas me desviam a atenção. Qualquer coisa pra dizer, ou não. Não há de salientar, não. O vento a fazer voar as penas, num bar ou qualquer lugar, num ônibus circular. Se a noite continuar, cidade vou te encontrar. E noite a madrugar manhãs escuras." (João Luis Braga / Luiz Gabriel Lopes)