terça-feira, 13 de maio de 2014

Incógnito

"Queria que fosses a morte,
Para que em seus braços
eu pudesse me jogar
sem medo ou culpa."

Entre sonhos perdidos e projetos esquizofrênicos havia um homem consumido pela preocupação. Os motivos eram vários, complexos e dinâmicos.
- O que acontece quando parte da sua vida recorre? -
Poderia ser um caos, poderia ser uma necessidade de retomar velhos hábitos. Sentia falta de ser invisível, incógnito, livre.
"Queria que fosses a morte," dizia a carta anônima. Era uma urgência, mas não o homem em si. Ele não queria ter "medo ou culpa". Ele temia que as fundações dos seus projetos mais internos desabassem. Que acabasse o combustível dos seus sonhos mais obscuros, pois eram neles que ele poderia se jogar e ser livre.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Perfect Strangers

The Sunset Limited é uma peça de teatro escrita por Cormac McCarthy, conhecido por No Country for Old Men, escrita em 2006 e estreada em Chicago no mesmo ano. Trata-se de uma discussão filosófica entre dois personagens sem nome, designados apenas pelas suas cores; Branco e Negro. Esta é uma releitura baseada na adaptação cinematográfica da peça. Está versão está disponível em DVD e Blu Ray, e possivelmente, no YouTube. 

Los Angeles, Quarta-feira, 6 de abril de 2011.

Eram cinco da manhã e, até onde Branco poderia observar, não havia muita gente na rua. Ele estava sentado e um dos bancos da Los Angeles Plaza Park e via alguns mendigos deitados entre as árvores ao lado. Tentava somente entender. Vestiu então seu casaco e partiu sentido a North Alameda Street para a Los Angeles Union Station. A esta altura Negro acabara de entrar na plataforma 4, estava indo trabalhar na cidade de Pomona há mais ou menos sessenta e cinco quilometros dali. Ele era um ex-presidiário e trabalhava como entregador de jornais havia cinco anos, tinha barba e cabelos grisalhos e aparentava ter quase 50 anos. Já Branco devia ter 55, era professor de Filosofia na University of Los Angeles, California (UCLA) e estava bem acabado.

Negro estava sentado ao lado de um poste aguardando o Sunset Limited que chegava as 5:35. Branco hesitou na entrada da plataforma, olhou de esguelha para a direção do trem e não viu ninguém. No horizonte via-se as luzes dos faróis do Sunset Limited e enquanto Negro pegava seu casaco e ia em direção do embarque, viu Branco correndo cego em direção àquelas luzes. Agiu por instinto e segurou o professor que ia em busca da sua própria destruição.

Chegaram ao apartamento. Existe uma cozinha conjugada com a sala com um fogão e uma geladeira grande. A porta para o corredor externo e outra para um quarto. A porta do corredor tem uma coleção bizarra de fechaduras e grades. Há uma mesa de fórmica barata e duas cadeiras cromadas e de plástico. Em cima da mesa tem uma Bíblia e um jornal. Um par de óculos. Um bloco e lápis. Negro está sentado em uma das cadeiras e Branco está em outra, batendo os dedos na mesa. O silêncio foi quebrado por Negro que olhava fixamente Branco.

- O que devo fazer com você, professor? - perguntou
- Por que você acha que deve fazer alguma coisa? - replicou Branco
- Bem, como eu lhe disse, tudo isso não é da minha conta. Veja, quando eu sai hoje de manhã para trabalhar, você não fazia parte dos meus planos. Ainda assim, você está aqui.
- Isso não significa nada. - disse Branco com os olhos cansados. - Tudo isso que aconteceu não significa qualquer coisa.
- E o que significa então?
- Não significa nada. - disse o professor. - Você se encontra com pessoas, algumas tem mais problemas que as outras, mas isso não significa que você é responsável por elas.

Negro olhava fixamente para o recém-conhecido professor.

- De qualquer forma, aqueles que sempre estão a procura de desconhecidos são geralmente aqueles que não se preocupam com quem deveriam se preocupar. Na minha opinião. Se você só faz aquilo que deve, então você não chega a ser um herói. - Continuou Branco.
- E esse "você" sou eu? - perguntou Negro.
- Eu não sei, seria?
- Bem, eu vejo verdade nisso. Mas, nesse caso em particular, eu devo dizer que eu não tenho certeza do tipo de pessoa que eu devo procurar, ou, o que devo fazer quando encontrá-lo. Nesse caso em particular, ele seria mais uma coisa indo em frente.
- E essa coisa seria?
- Que ele estaria logo ali. E eu olho pra ele e penso: Bem, ele não se parece com meu irmão, mas ele esta ali. Talvez seja melhor olhar de volta.

O professor vestia uma camisa escura e atentemente registrava cada palavra que o seu recém-conhecido dizia.

- E foi isso o que você fez? - perguntou o professor.
- Você foi sinceramente difícil de ignorar. Eu tenho que dizer que a sua abordagem foi bastante direta.
- Eu não abordei você, eu nem mesmo vi você.
- Sei.
- Eu devo ir, estou começando a lhe dar nos nervos.
- Não, você não está. - disse Negro. - O que eu não entendo é como você se deixou entrar nessa situação.
- É. - sentenciou Branco.
- Você está bem? Dormiu esta noite? - perguntou Negro.
- Não.
- Hm, e quando você decidiu que hoje seria o dia? Tem algo especial?
- Bem, não, hoje é meu aniversário, mas eu certamente não considero isso algo especial.
- Bom, feliz aniversário, professor.
- Obrigado.
- Então, você viu que aniversário estava chegando e decidiu que seria um bom dia.
- Quem sabe? - disse o professor. - Talvez os aniversários sejam perigosos, como o Natal. Bolas penduradas em árvores, guirlandas nas portas e cadáveres boiando nos esgotos de todo o país.
- Não diz muito sobre o natal, não é?
- O Natal não é mais o mesmo. - definiu Branco.
- Eu acredito que isso seja verdade, mesmo.

Branco, então, levantou-se da cadeira e colocou seu casaco de uma vez só, em vez de um braço por vez. Aos risos, Negro questionou,

- É sempre assim que você pôe o seu casaco?
- O que tem de errado no jeito que eu coloco o casaco?
- Não disse que há algo de errado, eu só imagino se esse é o seu método regular.
- Eu não tenho um modo regular de colocar o casaco. - disse o professor, um tanto intrigado. - Eu simplemente coloco. É afeminado?
- Hm.
- Hm, o quê?
- Nada, eu só estou aqui analisando o jeito dos professores. - disse o Negro, contendo seu riso.
- É, bem, eu devo ir.

Negro se levantou e foi até a poltrona.

- Deixe-me pegar meu casaco. - disse o Negro
- Seu casaco?
- Sim, meu casaco.
- Onde você está indo? - indagou o professor.
- Indo com você.
- Como assim, indo comigo?
- Indo onde quer que você esteja indo. - disse Negro com calma.
- Não! Eu estou indo para casa, você não pode ir pra casa comigo.
- Por que não?
- Você não pode.
- Como? Você pode vir pra minha casa, mas eu não posso ir na sua?
- Não, quer dizer, não é isso. - tentou argumentar Branco. - Eu só quero ir pra casa.
- Você mora num apartamento?
- Sim, eu moro.
- Eles não deixam negros entrarem lá?
- Não. Quer dizer, é claro que deixam. Olha, sem mais piadas, eu estou cansado, preciso ir.
- Bom, tomara que não tenhamos problemas para entrar no seu apartamento.

Negro colocou seu casaco e parou em frente ao professor incrédulo.

- Você está falando sério?
- Sim.
- Você não pode estar.
- Tão sério quanto um ataque cardíaco.
- Por que você faz isso?
- Eu, eu não tenho escolha alguma. - disse Negro enfático.
- Quem te nomeou como meu anjo da guarda?
- Deixe-me pegar meu casaco.
- Responda a pergunta.
- Você bem sabe quem me nomeou, eu não pedi para que você pulasse em meus braços hoje cedo.
- Eu não pulei em seus braços.
- Não? - perguntou Negro. - Como, então, você foi parar neles?

Branco foi em direção a cadeira e se apoiou nela, respirou fundo e sentou-se novamente.

- O quê? Agora nós não vamos?

[continua]

quinta-feira, 27 de junho de 2013

As linhas de Greyhound

São Francisco, Terça-feira, 27 de Janeiro de 1931. Cesar Statler acordou tarde e vestia seu paletó. Embora a culpa fosse do frio incomum que assolava o mês, ele amaldiçoava o pequeno rádio-relógio que tocava, ironicamente, Song Of The Dawn de Jack Hylton. Seguiu rapidamente para a copa de seu apartamento, na Leavenworth St. com a Sacramento St., para beber um gole do café requentado do dia anterior. Saiu a caminho do trabalho. Era garçom no luxuoso Pickwick Hotel, e o movimento no hotel havia subido desde sua menção no livro "The Maltese Falcon" de Dashiell Hammet. Lembrou-se em risos de quando o gerente do hotel, um senhor de meia-idade muito ríspido, veio com cópias do livro e obrigou todos os funcionários a lerem. A verdade era que algumas das camareiras eram mexicanas imigrantes e nem sabiam ler em inglês, por fim, coube a ele mesmo contar a história retratada.
Parou em uma banca perto da Golden Gate Av. para comprar um Daily Alta e um maço de cigarros. Estava quase atrasado para chegar no hotel. A vida que ele tinha como garçom era um tanto monótona, eram quase sempre os mesmos fregueses, e basicamente os mesmos pratos. Bastava a ele saber anotar os pedidos corretamente e em qual mesa entregá-los. Mesmo com a alta no movimento, o trabalho não tinha muito a se esperar. O que realmente emocionava Cesar eram as corridas de cachorros e cavalos, mesmo que ele não tivesse muito a apostar. O dinheiro era curto, e se manter num emprego em época de crise era uma sorte para poucos. Chegando no hotel, ele vestiu seu uniforme e seguiu para a cozinha para terminar os preparativos do Café da Manhã.
Em uma das viagens trazendo e levando bolos, pãezinhos e café, Cesar passou pela recepção do hotel, um magistroso prédio fazendo a esquina entre a Mission St. e a 5th St., e viu uma linda moça de vestido negro saltando de um táxi, algo raro devido as constantes greves de taxistas desde 1919. Ela entrou no hotel, seu cabelo era claro e curto e usava maquiagem sobre os olhos verdes. Os recepcionistas a atenderam e Cesar voltou a sua rotina.
Mais tarde, quase ao fim do café da manhã, ele a vê entrando e sentando em uma das mesas do café. Um sorriso se formou no rosto dele ao ver que ela lia o livro de Dashiell Hammet, ela não era a única e nem seria a única. Ele foi atendê-la.
- Bom dia, bem vindo ao The Pickwick Hotel, gostaria de algo para seu café da manhã?
- Bom dia, obrigada, vou querer um café e um pão tostado com queijo.
- Só um instante, senhorita.
Cesar seguiu até a cozinha estupefato com o olhar daquela moça. Seu olhos irradiavam uma alegria que ele não conseguia descrever. Ele sentia liberdade e reconforto ao lembrar do olhar fixo e penetrante que ela possuia. Por um momento, ele acreditava que ela finalmente estava em seu lugar.

Se eu morrer antes de acordar

Henry Spaatz era um rapaz jovem, de aparência não muito diferente dos demais. Ele estava sentado ao saguão do Aeroporto Idlewild em Nova York, era um domingo frio, 25 de Janeiro de 1931. Henry estava lendo um artigo sobre aviação no The New York Times, e pessoalmente, achava suicídio a tentativa de fazer um voô de Roma até Nova York. Ele havia tirado seu brevet para aviação comercial havia pouco, e como eram poucos os pilotos na época ele conseguiu um emprego na recém fundada United Aircraft and Transport Corporation. Iria como co-piloto numa viagem até São Francisco e ele estava um pouco nervoso, pois seria sua primeira viagem pela companhia.
Levantou-se e foi até uma cafeteria próxima, comprou um maço de cigarros e um café. Estava absorto em pensamentos quando uma jovem moça sentou ao seu lado no balcão. Usava um vestido negro, maquiagem sob olhos. Seu cabelo era castanho claro e curto, os olhos verdes. Ela tinha um ar apressado, porém preocupado. Ela tomou um café e saiu para fazer check-in. Henry continuava lá, terminou seu café, fumou dois ou três cigarros e terminou de ler seu jornal. Foi à sala da United, seus novos colegas estavam terminando de se preparar. Era uma viagem complicada, com duas escalas em Chicago e Salt Lake City. Decidiu por fim, ir ao hangar onde o avião fora taxeado para verificar alguns últimos detalhes com os mecânicos. Olhou uma segunda vez para a fila de check-in, mas não viu a moça dos olhos verdes.
O avião, um Boeing 80A, era o novo modelo que a United estava utilizando, possuia dois Pilotos e um assistente e tinha capacidade de levar até 18 passageiros.
O Avião já estava carregado e os passageiros já haviam sido chamados para o embarque. Henry recepcionava os passageiros que subiam ao avião. De longe ele viu a moça da cafeteria, seguindo em passos apressados com uma mala pequena. Ele voltou a cabine, esperou todos os passageiros se acomodarem e saiu para dar as ultimas instruções. Ele a viu sentada numa janela perto da asa do avião. Ela olhou pra ele, sorriu e voltou a ler seu livro. O olhar claro dela parecia querer escapar de tudo aquilo e, talvez, voar fosse a maneira mais fácil de se sentir livre.

Não me mande mais rosas

As luzes no escritório iam se apagando com o tempo, mas para Richard Swift o trabalho sempre ia até mais tarde. Todos os outros repórteres se despediam e deixavam seus textos para a revisão final. As luminárias se apagavam enquanto ao fundo ainda se ouvia o estalar de uma única máquina de escrever. Uma luz sozinha em uma sala que costumava ser barulhenta durante o dia. Richard porém, preferia o silêncio no escritório. Ainda que estes atrasos constantes fossem motivos de várias brigas com sua mulher, ele nunca se queixou do seu emprego. Richard era redator-chefe  no The New York Times, e, por volta das oito da noite, finalizara a edição do dia seguinte. 
Saiu, fechando o escritório atrás de si, em direção ao ponto de táxi algumas quadras acima. Estava indo para casa, um apartamento no Central Park North, na 5th Avenue esquina com a W 119th St. e esperava encontrar a mesa posta e o jantar quente. Parou numa banca comprar um jornal e uma carteira de cigarros e subiu no táxi alguns metros adiante. O dia era 22 de janeiro de 1931, uma quinta-feira, e para ele tudo corria bem. O táxi continuava sua jornada pela W 42nd St., e ainda se via a construção do Empire State ao sul. 
Chegando em casa, Richard deixou seu paletó no hall-de-entrada e checou seu relógio, eram oito e quarenta. Passou pelo portal que dava a sala e viu num sofá ao canto sua mulher. Usava um vestido negro até os joelhos e maquiagem pesada sob os olhos claros. O cabelo curto intensificava o tom sombrio do seu olhar. 
- Boa noite, amor.
- Chegando tarde de novo?
- Você sabe como é, tenho muita coisa a fazer no escritório.
- Não, não sei. E também não consigo entender. - finalizou ela, voltando a atenção para o livro que tinha nas mãos. Era o The Maltese Falcon de Dashiell Hammet.
Richard foi até o quarto, as luzes todas apagadas, e deixou sua mala em cima da cama, desafrouxou o nó da gravata e voltou a sala. O silêncio permanecia, quebrado regularmente pelo som dos seus sapatos no piso de madeira. Sentia o olhar dela o acompanhando. Pegou o seu jornal e sentou-se na poltrona ao lado do sofá. Por um momento seus olhos se cruzaram, por um momento ele soube que ela sempre estaria ali.