quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Colours
Era uma noite fria, num outono bem incomum. As conversas sobre jogos japoneses transcorriam num lugar semi-abandonado da faculdade. Eis que chegava pela porta uma garota em prantos. Isso já havia acontecido há muito tempo. E então as coisas mudaram muito, mas isso também já havia acontecido há muito tempo. Para Evaldo, hoje, as coisas tinham outro sentido, outro valor. As aulas já não rendiam mais, os textos menos ainda. Algo estava faltando, não haviam cores que pudessem alegrar, que pudessem aquecer. A chuva fina que caía aos poucos na janela e o vento cortante eram só indicativos de que nada melhoraria. Não enquanto chovesse e ventasse, não enquanto Tari não voltasse pra onde ela nunca deveria ter saído.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Frio Inerente
O frio prevalecia naqueles dias. Era normal, todos sabiam que o inverno chegaria, como sempre chegou. E com ele vinha uma certa promessa de mudança. Quem sabe fosse uma mudança para melhor. Evaldo checava o movimento da rua pela janela, era um sábado, a rua não estava muito cheia porém a vida dele como um todo estava bem agitada. E nem mesmo o frio inerente que cobria a cidade podia esfriar o coração de Evaldo. Ele havia conhecido alguém que podia terminar os amores errados e não correspondidos. Tari era o nome dela, e assim como as outras, era antes apenas uma amiga, daquelas que pedem conselhos, que estavam mergulhadas em problemas e cobranças. Mas, diferente das outras, via em Evaldo o porto seguro que só ele via nas pessoas. Era algo que ele nunca sentira, nem com Carolina, muito menos com Marina ou Laura. Evaldo tinha a certeza de que aquilo daria certo, uma certeza que jamais tivera.
domingo, 6 de maio de 2012
Xadrez
"Cecilia, eu estou fazendo tudo errado!" Essa era a vontade de gritar que tanto atormentava Evaldo. E de fato havia muita coisa errada nisso tudo. Mais uma vez ele estava sendo egoísta, mais uma vez estava transformando tudo numa grande mentira. As conversas ficaram cada vez menores e mais constrangidas. Evaldo esperava que tudo fosse diferente, e se não fosse por ele mesmo, quem sabe teria sido. Ou não, ele acreditava que não cabia a ele decidir, e sim aceitar. Como num jogo de xadrez em que cada jogada sua cria inumeras situações para o adversário. Cada movimento errado, e tudo vai por água abaixo. Era assim que Evaldo se sentia; quantos movimentos errados ele fez. Agora era questão de esperar uma segunda chance, ou o xeque-mate.
Sem Fôlego
O Sol brilhava por entre as
ruas do Centro Histórico de Curitiba, Evaldo estava dentro do ônibus a caminho do
trabalho quando avistou, pela janela suja, uma moça num carro, que batia as
cinzas de seu cigarro na rua e tragava mais uma vez o seu fumo de marca. A fumaça
ia invadindo o pulmão dela assim como as frequências selecionadas entravam no
ouvido pelo pequeno fone. Dava pra perceber que o homem no carro falava com
ela, mas ela não escutava. E de repente, a vida simplesmente virou a esquina. O Sol,
outrora tão brilhante, sumiu. E a moça de fones-de-ouvido e cigarro nunca mais
apareceu. As pessoas deixam marcas, às vezes, e outros se vão, como a moça
do cigarro e fones-de-ouvido. Evaldo chegou na escola em que trabalhava pra mais um daqueles dias metódicos e que se passavam numa velocidade assustadoramente lenta. Tentava, em vão ensinar algo àqueles poucos alunos que ainda se importavam. O dia acabou, e tristemente Evaldo ia pra casa, as fitas do walkman surrado já não tinham mais a mesma graça. Os bons cafés que tomava eram cada vez mais insossos. Não havia mais o calor que antes o motivava. Os problemas dele, e de outas pessoas o invadiam sem pedir licença, numa frequência que alarmava Evaldo. Pôs a chave na fechadura para mais uma daquelas noites em claro, à base de café e de vários textos ruins saindo pela máquina de escrever.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Tempo
Evaldo pensava no tempo. Em toda uma dimensão, todo um fluxo e em todo esse louvor pelo tempo dos dias modernos. Pensava em como seria a vida se não houvesse a incerteza criada pelo tempo. Sentado, em meio aos seus rascunhos, Evaldo ia esboçando à lápis sua própria opinião do tempo. Sentindo o frio que ele sentia a medida que aquele mesmo tempo passava. Tão presente, tão constante, mas maleável ao mesmo tempo. Parecia até que era alguma ilusão criada por nós mesmos, pra representar justamente a passagem do tempo. Confuso... amassou e jogou longe. "Parece que para definí-lo tenho sempre que recorrer à alguma palavra que já carrega em si uma ideia pre-estabelecida do que é tempo." Tinha lido isso num artigo muito bom sobre justamente o tempo. Não sabia mesmo como definí-lo, era algo muito além da compreensão. Como diziam as músicas, "O tempo era um amigo precioso." Mas seria o tempo, algo subjetivo? Sim, somente pelo fato de que não podemos definí-lo. O problema reside em querer compará-lo com outras coisas. O tempo é mais que isso, ele é um sentido, assim como visão e audição, e ele serve para nós sentirmos o universo. Ele é algo muito superior a nós, ele é uma constante universal, mesmo que inconstante. Seria justo louvá-lo como um deus, pensou Evaldo, mas logo se lembrou que as pessoas já o louvam. Não havia por fim, nada de errado. Eram mais uma daquelas questões existencialistas que jamais iríamos encontrar respostas.
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